Uma passagem pelos possíveis diferenciais de uma categoria que se acostumou a desvalorizar seus participantes e a enésima constatação de que tudo, ainda, não foi feito.

Salve, amigos do Esquadrão Interativo.
Aqueles que acompanham os campeonatos da Lega Pro, a nova entidade filiada a FIGC (na verdade, renomeação da Serie C), que organiza os campeonatos da Terceira e Quarta Divisões, hoje respectivamente chamados de 1^ e 2^ Divisione, em substituição às antigas denominações C1 e C2, já notaram o quão intimista pode ser o clima de uma partida da categoria. Um intimismo que pode ser percebido em vários momentos.
O primeiro intimismo é o ambiental. Uma grande parcela dos clubes, como já conversamos anteriomente, são de cidades que não são as capitais de suas províncias; por isso, mais do que representar uma legião, todavia pequena, às vezes, de seguidores, representa os valores de suas cidades, seja em nível esportivo que econômico (não nos esqueçamos que os clubes italianos são constituídos como empresas e, tendo a maioria destas pretensões que não se alargam de seu contexto citadino ou provinciano, contam com patrocínios e investimentos locais). Por sua vez, os clubes que vêm das capitais têm a necessidade de afirmação de suas condições de representantes dos grandes centros. Os investimentos, a torcida, a mídia local, tudo é amplificado. Estes clubes jogam pela estima de sua gente e de sua cidade em relação a outros centros, grandes ou pequenos, próximos ou afastados. Constitui-se, assim, um clima de constante rivalidade territorial, que, extremada, pode transcender os limites impostos pelos terrenos de jogo - este é outro assunto, em que cabe a intervenção competente do Estado.
O segundo intimismo é propiciado pela atmosfera. Jogos que ocorrem nas manhãs de domingo, "concorrendo" em horário e preferência com a Serie A, podem, em teoria, reforçar a identificação dos torceodres presentes com as cores de seu time, e de sua cidade, a cada novo encontro. Na "Curva", todos se conhecem e falam o mesmo dialeto. Um clima "paesano", que em nada lembra o futebol moderno - ao qual se atribui o declínio do futebol de província.
O terceiro e, em nossa visão, último intimismo, é aquele que denota sacrifício. É, sem dúvida, mais confortável assistir um jogo em Torino que em Giulianova. É, com certeza, mais fácil ser um interista, que sai em trasferta para Firenze, do que ser um torcedor da Ternana e viajar para Marcianise, em Caserta, na Campania. Mas esse tipo de presença devota, que parece se multiplicar em maus momentos do clube, é a tônica real das torcidas da Lega Pro - afinal, se seus clubes estivessem num bom período de suas histórias, jogariam na Serie B, pelo menos.
Como se percebe, os diferenciais da Lega Pro não são mais que uma soma de diversos fatores que, uma vez incentivados a contento, poderiam levar ao desenvolvimento do futebol provinciano e, conseqüentemente, fortalecer a categoria, a longo prazo.
O grande desafio da Lega Pro, hoje, é descobrir o porquê de nada disso estar sendo percebido pelos torcedores dos clubes de seus campeonatos.
A percepção pode esbarrar em barreiras diversas. A má condição da maioria dos estádios do bel paese (te faz lembrar de algum país, em particular?) pode ser uma delas. Apenas imaginem o quão estratosférica seria a média, já alta, de público do Hellas Verona se o Bentegodi tivesse seus quase 40 mil lugares liberados. E estamos falando de um estádio grande, de uma grande capital de província. Alguns campos pequenos, de cidades pequenas, não comportam nem 5 mil espectadores. É claro que, confrome baixe a espectativa de fluência à arena esportiva, mais baixa será a qualidade geral dos serviços e não há noção de sacrifício ou intimismo que resista à pouca assistência de quem promove o que deveria ser um evento. Uma coisa, afinal, é sofrer com o time; e outra, toda diferente, é sofrer pelo time.
As animosidades regionais também colaboram para uma menor freqüência aos estádios. São muitas as viagens vetadas a certas torcidas e, como estas também seriam parte do público pagante, cai a renda e a média de espectadores do clube hóspede.
Por último, destacamos um fator demagogo, que, aqui, chamaremos de "operação simpatia": a ausência de objetivos declarados de um time para a temporada gera desconfiança e afasta das pessoas a vontade de acompanhar de perto suas questões. Algumas equipes, claramente, buscam a promoção. Para outras, o importante é não cair. Entre os dois que sobem e os três que caem, por grupo, sobram quase 70 equipes cujos objetivos vão se definindo conforme o campeonato caminha. Ora, o torcedor deseja viver uma expectativa de ajudar sua equipe a conquistar um objetivo; se não souber qual será esse objetivo, pelo que se torce?
O resultado disso é uma média de público que perde, de longe (muito longe) daquela da terceira divisão inglesa, a Football League 1 - a 1^ Divisione deles. Falamos de liga inglesa porque a Premier é hoje, sem dúvidas, o campeonato de futebol mais bem organizado, "vendido" e gerido do mundo, e seu modelo vencedor não pode fazer outra coisa que criar parâmetros para a organização das divisões menores, que também são espetaculares.
Não queremos tecer comparações para a tual temporada - mesmo porque a Lega Pro não divulga os públicos dos jogos de seus campeonatos em seu site oficial - mas, quando observamos que o pequenino Norwich City possui média de 24108 espectadores em casa, sendo seu público mais alto 25217 pessoas e o mais baixo 23041 (variação de pouco mais de 2 mil pessoas, apenas), percebemos o quão atrasada está a Lega Pro em termos de comunicação e atratividade.
http://www.football-league.co.uk/page/DivisionalAttendance/0,,10794~200925,00.html
Nos últimos anos, a Lega Pro, inclusive quando ainda se chamava Serie C, viveu de "oasis". Grandes clubes, de grandes cidades e grandes torcidas, que atravessavam maus momentos e visitaram a categoria. Foi assim com a Florentia Viola (Fiorentina), o Napoli, o Genoa, e está sendo assim com o Hellas Verona. Os butei da terra de Romeo e Giulietta são os verdadeiros mantenedores de público da 1^ Divisione da Lega Pro, com cerca de 14 mil presenças fixas em casa (em média) e sempre numerosíssimos em trasferta - marcante, por exemplo, os mais de 2500 torcedores presentes em Reggio Emilia.
Trata-se, sem dúvida, da torcida mais numerosa da categoria, mas nem ela pode operar milagres: no temporada 2008-09, o Hellas Verona foi recordista de público em jogos em casa, com média de 10.932 espectadores.
http://www.calciopress.net/news/123/ARTICLE/6666/2009-06-04.html
Se sua média fosse confrontada com os clubes ingleses da Football League 1 na mesma temporada, seria a quarta maior. Neste ano, se aceita a média de 14000 pessoas por jogo, o clube teria o quinto melhor público, atrás de: Norwich City (24108); Leeds United (23.646); Southampton (19545) e Charlton (16856); e com grandes possibilidades de ser ultrapassado pelo eventual sexto, o Huddersfield, que tem média de 12887 e registrou seu maior público em pouco maior que a média do clube de Verona.
http://www.football-league.co.uk/page/DivisionalAttendance/0,,10794~200825,00.html
O Hellas Verona é um entre 90 clubes que se dividem entre a 1^ e 2^ Divisione. Enquanto o público do Hellas Verona subiu, o da Lega Pro continua estagnado. E não será, por certo, uma só sociedade a salvar um campeonato abarrotado de clubes, em sistema arcaico de fases classificatórias e play offs. Só a paixão justifica, não só a vivida em Verona como a dos resistentes de toda a Itália, os clubes da Lega Pro ainda estarem de pé.
Esse é o ponto principal: um campeonato não pode viver de paixão pré-establecida dos seguidores dos clubes participantes. O sentimento de passionalidade em relação a um clube é determinado por "n" fatores dificilmente mutáveis. É o campeonato que precisa despertar paixão, intresse, mostrar-se importante e organizado, para que os torcedores entendam que a punição de um rebaixamento para esta categoria foi simplesmente técnica, e não um isolamento do "calcio che conta". Vice-versa, o clubes ascensores das categorias amadoras precisam ter a oportunidade de planejamento de um futuro a médio prazo na categoria antes de tentar o acesso à Serie B, ou mesmo retornar aos amadores com maiores noções de futebol profissional.
Promoção do campeonato é a chave, e a torcida pessoal, nos estádios, é condição sine qua non para que a Lega Pro possa, verdadeiramente, vender o campeonato a contento para as televisões (pois não existe vitória, em mídia, quando de faz um grade trabalho para um estádio vazio).
Aqueles que acompanham os campeonatos da Lega Pro, a nova entidade filiada a FIGC (na verdade, renomeação da Serie C), que organiza os campeonatos da Terceira e Quarta Divisões, hoje respectivamente chamados de 1^ e 2^ Divisione, em substituição às antigas denominações C1 e C2, já notaram o quão intimista pode ser o clima de uma partida da categoria. Um intimismo que pode ser percebido em vários momentos.
O primeiro intimismo é o ambiental. Uma grande parcela dos clubes, como já conversamos anteriomente, são de cidades que não são as capitais de suas províncias; por isso, mais do que representar uma legião, todavia pequena, às vezes, de seguidores, representa os valores de suas cidades, seja em nível esportivo que econômico (não nos esqueçamos que os clubes italianos são constituídos como empresas e, tendo a maioria destas pretensões que não se alargam de seu contexto citadino ou provinciano, contam com patrocínios e investimentos locais). Por sua vez, os clubes que vêm das capitais têm a necessidade de afirmação de suas condições de representantes dos grandes centros. Os investimentos, a torcida, a mídia local, tudo é amplificado. Estes clubes jogam pela estima de sua gente e de sua cidade em relação a outros centros, grandes ou pequenos, próximos ou afastados. Constitui-se, assim, um clima de constante rivalidade territorial, que, extremada, pode transcender os limites impostos pelos terrenos de jogo - este é outro assunto, em que cabe a intervenção competente do Estado.
O segundo intimismo é propiciado pela atmosfera. Jogos que ocorrem nas manhãs de domingo, "concorrendo" em horário e preferência com a Serie A, podem, em teoria, reforçar a identificação dos torceodres presentes com as cores de seu time, e de sua cidade, a cada novo encontro. Na "Curva", todos se conhecem e falam o mesmo dialeto. Um clima "paesano", que em nada lembra o futebol moderno - ao qual se atribui o declínio do futebol de província.
O terceiro e, em nossa visão, último intimismo, é aquele que denota sacrifício. É, sem dúvida, mais confortável assistir um jogo em Torino que em Giulianova. É, com certeza, mais fácil ser um interista, que sai em trasferta para Firenze, do que ser um torcedor da Ternana e viajar para Marcianise, em Caserta, na Campania. Mas esse tipo de presença devota, que parece se multiplicar em maus momentos do clube, é a tônica real das torcidas da Lega Pro - afinal, se seus clubes estivessem num bom período de suas histórias, jogariam na Serie B, pelo menos.
Como se percebe, os diferenciais da Lega Pro não são mais que uma soma de diversos fatores que, uma vez incentivados a contento, poderiam levar ao desenvolvimento do futebol provinciano e, conseqüentemente, fortalecer a categoria, a longo prazo.
O grande desafio da Lega Pro, hoje, é descobrir o porquê de nada disso estar sendo percebido pelos torcedores dos clubes de seus campeonatos.
A percepção pode esbarrar em barreiras diversas. A má condição da maioria dos estádios do bel paese (te faz lembrar de algum país, em particular?) pode ser uma delas. Apenas imaginem o quão estratosférica seria a média, já alta, de público do Hellas Verona se o Bentegodi tivesse seus quase 40 mil lugares liberados. E estamos falando de um estádio grande, de uma grande capital de província. Alguns campos pequenos, de cidades pequenas, não comportam nem 5 mil espectadores. É claro que, confrome baixe a espectativa de fluência à arena esportiva, mais baixa será a qualidade geral dos serviços e não há noção de sacrifício ou intimismo que resista à pouca assistência de quem promove o que deveria ser um evento. Uma coisa, afinal, é sofrer com o time; e outra, toda diferente, é sofrer pelo time.
As animosidades regionais também colaboram para uma menor freqüência aos estádios. São muitas as viagens vetadas a certas torcidas e, como estas também seriam parte do público pagante, cai a renda e a média de espectadores do clube hóspede.
Por último, destacamos um fator demagogo, que, aqui, chamaremos de "operação simpatia": a ausência de objetivos declarados de um time para a temporada gera desconfiança e afasta das pessoas a vontade de acompanhar de perto suas questões. Algumas equipes, claramente, buscam a promoção. Para outras, o importante é não cair. Entre os dois que sobem e os três que caem, por grupo, sobram quase 70 equipes cujos objetivos vão se definindo conforme o campeonato caminha. Ora, o torcedor deseja viver uma expectativa de ajudar sua equipe a conquistar um objetivo; se não souber qual será esse objetivo, pelo que se torce?
O resultado disso é uma média de público que perde, de longe (muito longe) daquela da terceira divisão inglesa, a Football League 1 - a 1^ Divisione deles. Falamos de liga inglesa porque a Premier é hoje, sem dúvidas, o campeonato de futebol mais bem organizado, "vendido" e gerido do mundo, e seu modelo vencedor não pode fazer outra coisa que criar parâmetros para a organização das divisões menores, que também são espetaculares.
Não queremos tecer comparações para a tual temporada - mesmo porque a Lega Pro não divulga os públicos dos jogos de seus campeonatos em seu site oficial - mas, quando observamos que o pequenino Norwich City possui média de 24108 espectadores em casa, sendo seu público mais alto 25217 pessoas e o mais baixo 23041 (variação de pouco mais de 2 mil pessoas, apenas), percebemos o quão atrasada está a Lega Pro em termos de comunicação e atratividade.
http://www.football-league.co.uk/page/DivisionalAttendance/0,,10794~200925,00.html
Nos últimos anos, a Lega Pro, inclusive quando ainda se chamava Serie C, viveu de "oasis". Grandes clubes, de grandes cidades e grandes torcidas, que atravessavam maus momentos e visitaram a categoria. Foi assim com a Florentia Viola (Fiorentina), o Napoli, o Genoa, e está sendo assim com o Hellas Verona. Os butei da terra de Romeo e Giulietta são os verdadeiros mantenedores de público da 1^ Divisione da Lega Pro, com cerca de 14 mil presenças fixas em casa (em média) e sempre numerosíssimos em trasferta - marcante, por exemplo, os mais de 2500 torcedores presentes em Reggio Emilia.
Trata-se, sem dúvida, da torcida mais numerosa da categoria, mas nem ela pode operar milagres: no temporada 2008-09, o Hellas Verona foi recordista de público em jogos em casa, com média de 10.932 espectadores.
http://www.calciopress.net/news/123/ARTICLE/6666/2009-06-04.html
Se sua média fosse confrontada com os clubes ingleses da Football League 1 na mesma temporada, seria a quarta maior. Neste ano, se aceita a média de 14000 pessoas por jogo, o clube teria o quinto melhor público, atrás de: Norwich City (24108); Leeds United (23.646); Southampton (19545) e Charlton (16856); e com grandes possibilidades de ser ultrapassado pelo eventual sexto, o Huddersfield, que tem média de 12887 e registrou seu maior público em pouco maior que a média do clube de Verona.
http://www.football-league.co.uk/page/DivisionalAttendance/0,,10794~200825,00.html
O Hellas Verona é um entre 90 clubes que se dividem entre a 1^ e 2^ Divisione. Enquanto o público do Hellas Verona subiu, o da Lega Pro continua estagnado. E não será, por certo, uma só sociedade a salvar um campeonato abarrotado de clubes, em sistema arcaico de fases classificatórias e play offs. Só a paixão justifica, não só a vivida em Verona como a dos resistentes de toda a Itália, os clubes da Lega Pro ainda estarem de pé.
Esse é o ponto principal: um campeonato não pode viver de paixão pré-establecida dos seguidores dos clubes participantes. O sentimento de passionalidade em relação a um clube é determinado por "n" fatores dificilmente mutáveis. É o campeonato que precisa despertar paixão, intresse, mostrar-se importante e organizado, para que os torcedores entendam que a punição de um rebaixamento para esta categoria foi simplesmente técnica, e não um isolamento do "calcio che conta". Vice-versa, o clubes ascensores das categorias amadoras precisam ter a oportunidade de planejamento de um futuro a médio prazo na categoria antes de tentar o acesso à Serie B, ou mesmo retornar aos amadores com maiores noções de futebol profissional.
Promoção do campeonato é a chave, e a torcida pessoal, nos estádios, é condição sine qua non para que a Lega Pro possa, verdadeiramente, vender o campeonato a contento para as televisões (pois não existe vitória, em mídia, quando de faz um grade trabalho para um estádio vazio).
Neste mês, comemoram-se os 50 anos da Lega Pro. Esse é o momento.
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